Festa de São Roque 1976: Fé, cultura e memórias que ecoam até hoje
Em 1976, a Festa de São Roque uniu fé, cultura e política com atrações nacionais, tapetes de rua e a presença de figuras como Adoniran Barbosa e Dom Paulo Evaristo Arns, deixando um legado que ainda ecoa na cidade.

A cidade de São Roque, no interior paulista, viveu em agosto de 1976 uma de suas celebrações mais marcantes, que até hoje povoa as conversas dos moradores – o chamado “terceiro tempo” pós-festa, quando críticas e elogios se misturam. Mais do que um evento religioso, a Festa de São Roque daquele ano consolidou-se como um marco de união comunitária, com uma programação que mesclou devoção, arte e encontros políticos. Os registros da época, feitos por cronistas locais, revelam uma cidade que se orgulhava de receber figuras ilustres e de oferecer uma experiência familiar e segura, contrastando com outras festividades da região, como a Festa do Vinho.
A presença de personalidades como a ex-primeira-dama Leonor Mendes de Barros, viúva do governador Adhemar de Barros, que se hospedou na casa de Heitor Rino Boccato, mostra o prestígio de São Roque como destino de veraneio e de encontros políticos. Na mesma época, dona Amasilia Ribeiro Lopes recebeu o prefeito de Indaiatuba, Romeu Zerbini, e sua esposa, evidenciando a teia de relações que a festa mobilizava. Essa circulação de autoridades não era mero acaso: a cidade, que já despontava como polo turístico do vinho, buscava reforçar sua imagem de acolhimento e organização.
O colunista Ricardo Itagiba Budemberg, em sua coluna “São Roque Tempos”, não poupou elogios à decoração das ruas Rui Barbosa e Marechal Deodoro, que foram ornadas com os famosos tapetes de rua – uma tradição iniciada em 1975 por Vasco Barioni. Esses tapetes, feitos com areia colorida, serragem, tampinhas de mel e flores naturais, transformavam as vias em verdadeiras obras de arte efêmeras, dedicadas a São Roque. Budemberg chegou a comparar a festa de 1976 com a Festa do Vinho, afirmando que a primeira superou a segunda em organização e segurança, por ser um evento familiar sem incidentes como brigas ou furtos – uma visão que, décadas depois, ainda gera debates entre os sanroquenses.
A programação cultural foi de alto nível, com a Praça da Matriz recebendo artistas consagrados: Abílio Manoel, vencedor do II Festival Universitário com “Pena Verde”; o inesquecível Adoniran Barbosa; a cantora e folclorista Inezita Barroso; o Conjunto de Seresta “Os Saudosistas”; além de bandas e corais. O ponto alto foi a apresentação da Orquestra Sinfônica Estadual, regida pelo maestro Eleazar de Carvalho, na noite de 16 de agosto. Tal escalação artística demonstrava o empenho da organização em oferecer entretenimento diversificado, capaz de atrair tanto os fiéis quanto os apreciadores da boa música.
No campo religioso, a Igreja Matriz de São Roque ficou lotada para a Missa Solene em Ação de Graças pelas Bodas de Ouro da Ordenação do Monsenhor Silvestre Murari. O coral do Hospital das Clínicas, sob a regência de Affonso Pegoraro – autor do hino “São Roque, o peregrino” (1975) – abrilhantou a cerimônia. Ao meio-dia, uma salva de morteiros ecoou por toda a cidade, um sinal de confraternização que, se fosse feito hoje, certamente geraria críticas devido ao barulho. A procissão de São Roque contou com palmas, orações, flores e uma chuva de papel picado, prática que desapareceu com o tempo. A presença do cardeal-arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, figura de destaque nacional, reforçava a importância de São Roque dentro da Arquidiocese de São Paulo – hoje a cidade pertence à Diocese de Osasco, e o bispo Dom Frei João Bosco Barbosa de Sousa não tem participado da procissão, o que gera reflexões sobre as mudanças na relação entre a paróquia e a diocese.
Os casais de festeiros – Alcides Rolim e Dirce Parisi Rolim, e Dirceu de Arruda e Mariza Guzzon de Arruda – foram agradecidos pelo sucesso, e os nomes dos festeiros do ano seguinte já eram anunciados: Ilário Mariucci e Helena Salvetti Mariucci, e o professor Osmar de Castro Boccato com doutora Durcema Judith Villaça Boccato, que receberam aplausos da multidão. A cerimônia religiosa foi conduzida pelo padre Peter Fenech (Padre Pedro), com as bandas 7 de Setembro, Liberdade e Carlos Gomes. O prefeito Jarbas de Moraes recebeu cumprimentos de autoridades como o senador Orestes Quércia e o governador Paulo Egydio Martins, entre outros.
A Festa de São Roque de 1976 permanece na memória coletiva como um exemplo de como a fé, a cultura e a política podem se entrelaçar em uma celebração que, meio século depois, ainda inspira comparações e saudosismos. Para os moradores, reviver esses detalhes é resgatar parte da identidade da cidade, que soube, por alguns dias, unir todos em torno de um mesmo propósito: honrar seu padroeiro com esmero e alegria.